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Espelhos Que Andam

  • Foto do escritor: Darah
    Darah
  • 25 de jun.
  • 3 min de leitura

Esta é uma carta aberta a todos que me ajudaram a refletir

Tem gente que a gente encontra e parece carregar um espelho na fuça, né? Mas não desses que mostram só o lado de fora. São espelhos que cutucam por dentro, revelam a raiva que a gente finge que não tem, a insegurança disfarçada de arrogância, a dor antiga camuflada de desprezo.

Essas pessoas não vêm com boas intenções. Nem más. Elas só existem. E, na sua existência, provocam. Não porque querem, mas porque conseguem.

É fácil chamá-las de tóxicas, difíceis, insuportáveis. E às vezes são mesmo. Mas quando o incômodo é maior do que o comportamento delas explicaria, talvez valha a pena perguntar: o que exatamente está doendo? É o que elas fazem ou o que despertam?

Em um restaurante aleatório, Madrid - Canon EOS 1995, kodak gold 200mm
Em um restaurante aleatório, Madrid - Canon EOS 1995, kodak gold 200mm

Às vezes, o que nos fere nos outros são partes nossas que negamos — como quando criticamos alguém por ser egoísta, mas também carregamos essa energia não resolvida. Outras vezes, são feridas antigas reativadas, como um abandono que volta a pulsar quando alguém se afasta da gente sem dizer o porquê. E há também os espelhos que revelam nossos medos, limitações e crenças negativas. O tipo de reflexo que incomoda porque exige coragem pra olhar.


Muita gente foge desses espelhos. Bloqueia, evita. Mas quanto mais a gente foge, mais eles se multiplicam. Mudam de rosto, de voz, mas continuam dizendo: “olha aqui, olha você, seu besta”.

Alguns espelhos eu percebi tarde demais. Estava tão ocupada me defendendo, julgando, tentando vencer por fora, que nem notei a batalha que eu perdia por dentro. Teve gente que me incomodou tanto que eu preferi ir embora em vez de entender: o que mais doía não era o que fizeram, mas o que deixei de ver em mim.

Yayoi Kusama, Aftermath of Obliteration of Eternity (2009)
Yayoi Kusama, Aftermath of Obliteration of Eternity (2009)

Alguns se foram antes que eu pudesse agradecer. Mas aprendi que nem toda consciência vem na hora certa. Às vezes, ela vem depois. E, quando vem, ilumina até o que já passou.

Hoje, olho para esses espelhos com menos culpa e mais respeito. Pelo tempo que levei pra me enxergar. Pela disposição que ainda tenho de continuar olhando. Perdoar um espelho não é fazer as pazes com o outro. É fazer as pazes com o que ele revelou. É dizer: “Vish, que feia! Mas agora posso cuidar.” Dói, mas não é culpa — é responsabilidade. E responsabilizar-se transforma.

É por isso que eu gosto de espelhos, sabe? Não no sentido literal — embora, às vezes, também. Ver meus defeitos não é prazeroso, mas é bom. Porque aprendi que, cada vez que encaro um deles, algo em mim se expande.

Nem sempre foi assim. Já fugi, já culpei, já apontei o dedo. Mas no fundo, o incômodo sempre me chamava pra dentro. E entendi que encarar espelhos é crescer. Eles não vêm embrulhados em fita com um docinho e um cartão gentil escrito "Darah, meu amor, melhore... você é grossa às vezes". Vêm com dor, frustração, crítica. Mas, se a gente não os quebra de cara, e olha com olhos limpos, eles apontam o caminho.

Não o do outro — o nosso.

E é aí que começa a mágica: quando o reflexo vira direção.

No fim das contas, os espelhos continuam aparecendo. Mas, com o tempo, deixam de ser ameaça. Viram mestres. E a gente segue, refletindo mais do que antes — não apesar das rachaduras, mas por causa delas.

Matthew Barney, De lama lâmina (2009)
Matthew Barney, De lama lâmina (2009)

 
 
 

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